SAÚDE MENTAL
Entenda por que depressão, transtorno bipolar e dependência química são fatores clínicos que exigem atenção na prevenção do suicídio e na saúde mental.
Durante o Setembro Amarelo, é comum falar sobre prevenção do suicídio a partir de mensagens de acolhimento, escuta e valorização da vida. Esses elementos são importantes, mas não substituem a necessidade de compreender os fatores clínicos que podem aumentar o sofrimento psíquico e exigir avaliação especializada. Depressão, transtorno bipolar e dependência química estão entre as condições que merecem atenção cuidadosa quando o assunto é saúde mental, risco e prevenção.
Isso não significa que toda pessoa com esses diagnósticos terá comportamento suicida. Também não significa que o sofrimento possa ser explicado por um único fator. O suicídio é um fenômeno complexo, multifatorial e individual.Ainda assim, algumas condições psiquiátricas podem aumentar vulnerabilidades, especialmente quando não são diagnosticadas, não são tratadas ou aparecem associadas a isolamento, impulsividade, desesperança, uso de substâncias e abandono do acompanhamento.
Setembro Amarelo e avaliação clínica
O Setembro Amarelo é uma campanha importante para ampliar o debate sobre prevenção do suicídio. Porém, falar sobre o tema exige responsabilidade. Prevenir não é apenas dizer para a pessoa “pedir ajuda”. É também reconhecer sinais de alerta, reduzir estigma, facilitar o acesso ao tratamento e compreender que certos quadros psiquiátricos precisam de acompanhamento contínuo.Na prática clínica, a avaliação do risco envolve observar sintomas, intensidade do sofrimento, histórico pessoal, uso de substâncias, impulsividade, rede de apoio, presença de transtornos mentais, adesão ao tratamento e funcionamento diário. Por isso, depressão, bipolaridade e dependência química não devem ser tratadas como temas isolados. Em muitos casos, elas se relacionam e podem agravar umas às outras.
Depressão: mais do que tristeza
A depressão é frequentemente associada à tristeza, mas pode se manifestar de formas mais amplas. Além do humor deprimido, podem aparecer perda de interesse, fadiga, alterações no sono, mudanças no apetite, dificuldade de concentração, lentificação, irritabilidade, culpa excessiva, sensação de inutilidade e desesperança. Em alguns casos, a pessoa não verbaliza tristeza de forma direta. O quadro pode aparecer como isolamento, queda de rendimento, perda de autocuidado, dores, irritabilidade ou cansaço persistente.
No contexto da prevenção do suicídio, a desesperança é um sinal clínico especialmente relevante. Quando a pessoa passa a acreditar que nada pode melhorar, que é um peso para os outros ou que não existe saída, o sofrimento exige atenção imediata. A depressão tem tratamento, mas o diagnóstico correto e o acompanhamento contínuo são fundamentais.
Transtorno bipolar: por que o diagnóstico correto importa?
O transtorno bipolar envolve episódios de alteração do humor, que podem incluir depressão, mania ou hipomania. Muitas pessoas procuram atendimento durante a fase depressiva, quando há tristeza, desânimo, insônia ou excesso de sono, culpa, falta de energia e perda de interesse. Se o histórico de mania ou hipomania não for investigado, o quadro pode ser confundido com depressão unipolar. Essa diferença é importante porque o tratamento da depressão bipolar exige cuidado específico.
Episódios de mania ou hipomania podem envolver aumento de energia, redução da necessidade de sono, aceleração do pensamento, impulsividade, irritabilidade, gastos excessivos, comportamento de risco e sensação de grandiosidade. Já os episódios depressivos no transtorno bipolar podem ser intensos e associados a sofrimento importante. Quando há instabilidade do humor, impulsividade, uso de substâncias ou interrupção do tratamento, o risco clínico pode aumentar.
Por isso, oscilações de humor recorrentes, períodos de energia muito elevada, mudanças importantes no sono e episódios depressivos repetidos devem ser avaliados com atenção.
Dependência química: sofrimento, impulsividade e perda de controle
A dependência química não deve ser reduzida a uma questão de escolha ou força de vontade. Ela envolve alterações em circuitos cerebrais relacionados à recompensa, motivação, memória, controle dos impulsos e tomada de decisão. Com o tempo, o uso pode persistir mesmo diante de prejuízos físicos, emocionais, familiares, profissionais e sociais.No contexto do Setembro Amarelo, o uso de álcool e outras substâncias exige atenção por diferentes motivos. Substâncias psicoativas podem piorar sintomas depressivos e ansiosos, reduzir a qualidade do sono, aumentar impulsividade, comprometer julgamento e dificultar a adesão ao tratamento.
Além disso, muitas pessoas usam álcool ou drogas como tentativa de aliviar dor emocional, insônia, ansiedade, vazio ou angústia. O problema é que esse alívio costuma ser temporário e pode intensificar o sofrimento depois. Quando há dependência química associada a depressão ou transtorno bipolar, a avaliação precisa ser ainda mais cuidadosa.
Quando os quadros se sobrepõem
Na prática clínica, é comum que sintomas psiquiátricos não apareçam isoladamente. Uma pessoa com depressão pode aumentar o consumo de álcool para tentar dormir ou aliviar a angústia. Uma pessoa com transtorno bipolar pode usar substâncias em fases de impulsividade, desorganização ou sofrimento. Uma pessoa com dependência química pode desenvolver sintomas depressivos, ansiedade intensa ou prejuízo cognitivo.
Essa sobreposição pode dificultar o diagnóstico. Nem sempre é simples identificar o que veio primeiro: o transtorno mental, o uso de substâncias, a insônia, a crise familiar, o isolamento ou a perda funcional. Por isso, a avaliação psiquiátrica considera a história clínica completa, a evolução dos sintomas, o padrão de uso de substâncias, o contexto de vida, os riscos presentes e a resposta a tratamentos anteriores.
Sinais de alerta que exigem atenção
Alguns sinais devem ser observados com cuidado, especialmente quando aparecem de forma persistente ou intensa:
- isolamento progressivo;
- perda de interesse pela rotina;
- piora importante do sono;
- aumento do uso de álcool ou outras substâncias;
- irritabilidade intensa;
- impulsividade;
- abandono do tratamento;
- falas de desesperança;
- sensação de ser um peso para os outros;
- queda importante no autocuidado;
- mudanças bruscas de comportamento;
- piora de sintomas depressivos ou de instabilidade do humor.
Esses sinais não devem ser interpretados como “drama”, “fraqueza” ou “falta de vontade”. Eles podem indicar sofrimento clínico relevante.
O risco de abandonar o tratamento
Um ponto importante na prevenção é a continuidade do cuidado. Muitas pessoas interrompem medicações ou acompanhamento quando apresentam melhora parcial. Outras abandonam o tratamento por efeitos adversos, vergonha, estigma, dificuldade financeira, falta de apoio familiar ou baixa percepção da gravidade do quadro. No entanto, depressão recorrente, transtorno bipolar e dependência química frequentemente exigem acompanhamento contínuo.
Abandonar o tratamento sem orientação pode aumentar o risco de recaídas, descompensações, retorno de sintomas e perda de funcionalidade. Quando há dúvidas sobre medicação, efeitos colaterais ou necessidade de manter o tratamento, o caminho mais seguro é conversar com o médico. Muitas vezes, é possível ajustar a dose, trocar medicação, rever condutas ou incluir outras formas de cuidado.
O papel da família e da rede de apoio
A família e as pessoas próximas podem ter papel importante na prevenção. Isso não significa assumir o lugar do tratamento, mas observar mudanças, oferecer escuta, evitar julgamento e incentivar a busca por ajuda profissional. No caso da dependência química, a rede de apoio também precisa compreender que cobrança, ameaça e confronto isolado nem sempre produzem mudança. Muitas vezes, aumentam resistência, vergonha e afastamento. No caso da depressão e do transtorno bipolar, frases como “reage”, “você tem tudo” ou “é só pensar positivo” podem piorar o isolamento.
Acolher é levar o sofrimento a sério.
A busca por atendimento em saúde mental pode ser indicada quando sintomas emocionais, comportamentais ou relacionados ao uso de substâncias começam a interferir na vida cotidiana. Alguns sinais de que a avaliação psiquiátrica pode ser necessária incluem tristeza persistente, ansiedade intensa, insônia, irritabilidade, alterações importantes de humor, episódios de impulsividade, uso problemático de álcool ou outras substâncias, perda de interesse, isolamento e queda no funcionamento diário.
Quanto mais cedo o sofrimento é avaliado, maiores as possibilidades de cuidado adequado. Esperar que o quadro se agrave pode prolongar o sofrimento e aumentar riscos. Em situação de risco, procure ajuda imediatamente.
Setembro Amarelo não deve ser apenas um mês de frases de incentivo. Ele também precisa ser um período de informação clínica responsável.
Dr. Juliano Szulc Nogara
Médico Psiquiatra
CREMERS 27313
MD. Juliano Szulc Nogara
Psiquiatra - CREMERS 27313
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